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UPF recebe primeiro aluno senegalês

Publicado em 17.03.2016 20:30

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O imigrante senegalês da cidade de Thiès, Abou Ba, 23 anos, veio para o Brasil com um objetivo bem definido: “Eu quero estudar”. Está no Brasil há sete meses e, quando chegou em São Paulo, os senegaleses, que lá estavam, indicaram um destino: o município de Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul. Ao contrário da maioria dos imigrantes que está na cidade, Abou não busca somente uma oportunidade de trabalho, mas almeja estudar. E, em janeiro deste ano, ele conquistou uma etapa importante para esse sonho: passou no vestibular complementar e tornou-se o primeiro aluno imigrante senegalês a ingressar na Universidade de Passo Fundo (UPF).

O curso escolhido por Abou foi Letras, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). “Cursei Literatura Francesa no Senegal, na Universidade de Dacar (Ucad), durante um ano e meio, mas não me formei e resolvi viajar para o Brasil. Não conclui o curso lá porque as coisas são mais difíceis. As pessoas terminam os estudos, mas não conseguem emprego, ficam na rua. E esse é um dos motivos pelos quais vim para o Brasil. Escolhi Letras porque é parecido com Literatura Francesa no meu país”, explicou o senegalês.

Para conquistar o sonho de continuar os estudos no Brasil, Abou esforçou-se muito para aprender o novo idioma e a escrita. “Primeiro fiz o Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja) e um curso Técnico em Administração na Escola Estadual Protásio Alves para compreender, ler e escrever Português. Fico muitas horas estudando ainda”, comentou.

Abou contou com a ajuda de algumas pessoas para traduzir os documentos e ingressar na Universidade. Apesar de ser imigrante, ele não poderia entrar como intercambista, uma vez que não está vinculado a nenhuma Universidade no Senegal. “Fui apresentado para a vice-reitora de Extensão e Assuntos Comunitários, que perguntou o que eu gostaria de fazer na UPF. Ela disse que a única maneira de ingresso era por meio do Vestibular. Estudei bastante e fiz o Vestibular Complementar, que exigia a produção de uma redação. Passei e agora sou estudante de Letras, com uma bolsa oferecida pela Universidade”, pontuou o acadêmico.

De acordo com a vice-reitora de Extensão e Assuntos Comunitários da UPF, Bernadete Maria Dalmolin, a Universidade está disposta a contribuir com a inserção dos imigrantes no ensino superior. “A Reitoria está discutindo um projeto futuro para inclusão desses imigrantes na Universidade. O Abou é o nosso primeiro aluno imigrante senegalês que ingressou por meio de vestibular e, a partir dessa experiência, vamos desenvolver uma forma de inserir outros imigrantes na UPF”, ressaltou Bernadete.

O acadêmico imigrante, que já compreende e se comunica bem em português, fala francês, que é a língua oficial do Senegal; sua língua materna, o wolof, e, também, o peul – outra língua étnica do Senegal. Além disso, Abou estuda inglês e espanhol. Todo esse conhecimento e a cultura de dele serão aproveitados em um dos projetos de extensão da UPF, chamado Ensino e Inovação. “Ele será bolsista Paidex desse projeto, que envolve ensino de línguas e formação de professores, e vamos estruturar oficinas sobre a língua materna dele, bem como sobre cultura e literatura africana e língua francesa, para a comunidade acadêmica e externa. O propósito dele é estudar e o nosso é oferecer oportunidade de estudo. Será uma troca de experiências enriquecedora”, destacou a coordenadora do projeto de extensão, professora Luciane Sturm.

A inclusão de Abou não é uma ação isolada na Universidade, ela faz parte da temática de educação das relações étnico-raciais na UPF, iniciada em 2013, com o projeto de extensão UPF e Movimentos Sociais: educação das relações étnico-raciais. Nesse último ano, a Instituição tem integrado o Fórum de Mobilidade Humana, do qual também fazem parte representantes dos imigrantes senegaleses e no qual se aborda a condição dos imigrantes na cidade. “A Universidade tem constituído atividades que desconstroem noções racistas e discriminatórias, a respeito desses imigrantes. A inclusão do aluno Abou em nossa comunidade acadêmica reitera o compromisso da UPF com a temática das relações étnico-raciais, na construção de uma sociedade pautada pela justiça social e direitos humanos”, enfatizou o coordenador do projeto de extensão UPF e Movimentos Sociais, Frederico Santos.
“O estudo é fundamental para o futuro de uma pessoa”
O senegalês veio para Passo Fundo sem falar sequer uma palavra em Português. “Vim sozinho no ônibus e não conhecia ninguém em Passo Fundo. No primeiro dia, fiquei três horas na Rodoviária, até encontrar outro senegalês que falasse a minha língua e pudesse me indicar um local para ficar”, relembrou o senegalês.

Na sala de aula, Abou está se adaptando e conhecendo a cultura local. “Os colegas me ajudam com a língua. Se eu não compreendo e não conheço, eles me explicam. Os professores também estão me ajudando e pedem constantemente se eu estou compreendendo”, observou.

A troca de experiência na sala de aula é internacional. “Conversamos sobre tudo, trocamos experiências e cada um fala da sua cultura e religião. Está sendo um aluno excelente”, afirmou o colega Leomir Lemes.

Como acadêmico e futuro professor, Abou acredita que a educação é sempre o melhor caminho. “Desde menino, eu gosto de estudar. O estudo é fundamental para o futuro de uma pessoa. Não adianta ir para outro país se você não se preparou. Quando era criança, estudamos o Brasil na escola e, depois disso, sempre pensei em viajar para cá. É um país muito legal. Não é só futebol. Penso em conquistar meu diploma e participar de atividades aqui. Quero ser professor. Na minha família, tenho dois irmãos professores”, comentou Abou, que tem muito orgulho e saudade da família, que ficou no Senegal.

* Portal Gazeta

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